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“Entre vocês não será assim”: desintoxicando a missão (Mc. 10. 35-45)

18 mar

“Entre vocês não será assim”: desintoxicando a missão (Mc. 10. 35-45)

Introdução

O evangelho segundo escreveu Marcos é considerado “O Evangelho do Servo”. Um texto cuja característica marcante é a espiritualidade do serviço.

Seu versículo-chave é justamente Mc. 10. 45 – o nosso tema! Segundo os Pais da Igreja, Marcos era uma espécie de “intérprete de Pedro” e, nessa ótica, apresenta Jesus como “O Servo por excelência”.

Para Marcos, a espiritualidade do serviço só é compreendida quando estamos sintonizados com os princípios do Reino: amor, unidade e serviço.

O episódio que lemos é um daqueles que devem nos conduzir a uma profunda reflexão sobre as nossas motivações, inclinações e inquietações. A pergunta é: “quais são as nossas reais intenções ao nos envolvermos num relacionamento com Jesus?”

O grupo de discípulos novamente é descrito dividido – o que era recorrente entre eles – ainda pensando em termos de reinado político, Tiago e João nos são apresentados em suas ambições mais nuas – a busca por lugares de proeminência.

Eles queriam desfrutar dos privilégios do parentesco (eram, provavelmente primos de Jesus). Queriam desfrutar da intimidade do rei. Ansiavam pelos lugares de honra: direita e esquerda (apesar da mística estranha que a “esquerda” simbolizava para os antigos).

Eles estavam a caminho de Jerusalém, capital política, portanto entenderam que era o momento ideal para reivindicarem posições de destaque.

Aqui cabem-nos duas questões:

  1. O que realmente queremos de Jesus?
  2. Quais são as intenções do nosso serviço?

Às vezes, queremos “intimidade” com Deus apenas para passarmos a impressão de santidade.

Às vezes, nos envolvemos com missões apenas para que as pessoas vejam o quanto somos generosos: é a síndrome de Ananias e Safira – mentir para Deus para cair nas graças do povo! Politicagens da fé!

O que podemos aprender com esse texto para desintoxicarmos a nossa missão?

 

  1. É preciso desintoxicar os nossos desejos (35, 36)

Estamos diante de uma frase infeliz: “Mestre, queremos que nos concedas o que vamos te pedir”. Esse ainda é o sonho consumista da maioria dos discípulos de hoje – a oração com complexo de cheque em branco!

Os discípulos parecem crianças travessas pedindo coisas bizarras – não por acaso a mãe deles estava junto!

Há aqui, ainda que inconscientemente, uma tentativa de comprometer Jesus antecipadamente: “Queremos que nos conceda!” Uma atitude, no mínimo, antiética!

Jesus pergunta: “O que vocês querem?” É o processo de desintoxicação dos desejos: Jesus recusa-se a comprometer-se. O que o Mestre nos ensina é crucial: cuidado com promessas cegas!

Jesus exige que Tiago e João sejam específicos, claros, deifinidos! Que saibam o que seus desejos buscam.

Quais são os nossos desejos? Quais são os desejos tóxicos, promessas cegas, projetos pessoais disfarçados de reino. Será que não estamos usando Jesus para assegurarmos nosso pequeno reinado?

 

  1. É preciso desintoxicar a nossa compreensão do Reino (37)

Os discípulos mais uma vez são traídos por sua compreensão equivocada do Reino. Estão sonhando com tronos e glórias que jamais terão!

Ainda hoje brigamos por tronos e glórias que Jesus nunca quis!

Eles só vão ter um real vislumbre do que terão de fazer com seus delírios de poder na mesa da última ceia (João 13): ali Jesus, ao lavar os pés dos discípulos, destruiu qualquer resquício de dominação, poder, controle. Jesus inverteu a pirâmide!

O texto é honesto o suficiente para expor a ambição pecaminosa, egoísta, individualista de Tiago e João. Um desejo pecaminoso com raízes na família: a mãe deles também acalentava o delírio.

Em outras ocasiões Jesus havia incluído os dois, Tiago e João, no círculo mais íntimo de discípulos, formando uma tríade com Pedro: os famosos “Pedro, Tiago e João”. Talvez a visão da intimidade tenha despertado o gosto por ser vip. Não é de hoje que somos seduzidos pelo poder!

Se a nossa compreensão do Reino não for da humildade, de abrir mão do poder, dos sonhos faraônicos, dos delírios e complexos de gigantismo, podemos nos tornar caçadores de tronos, assaltantes da glória, viciados na droga mortal do sucesso.

 

  1. É preciso desintoxicar a nossa compreensão da missão (38-40)

O texto contém um lamento de Jesus: “Vocês não sabem o que estão pedindo”. Deve ser assim que Deus se sente quando pedimos algo que pode nos destruir!

Jesus aqui os lembra de que, na missão de Deus, um pedido por glória é, também, um pedido por sofrimento! Na missão de Deus não há glória sem cruz! Eles vão aprender na prática! Tiago será o primeiro martirizado. João passará anos exilado, sozinho, na solidão de suas revelações.

Na fraseologia do Antigo Testamento, a expressão “beber o cálice”, ou seja, ingerir seu conteúdo, significa experimentar, em profundidade, a mesma experiência!

Marcos ainda registra a expressão sinônima: “receber o batismo com que eu sou batizado”. As duas representam experiências: “beber o cálice” é uma ação ativa; ao passo que “receber o batismo” indica uma obediência passiva naquilo que fere – Jesus experimentou as duas dimensões – e os discípulos agora pedem o mesmo!

Quando a nossa compreensão da missão é distorcida, só conseguimos focar os brilhos, a fama, os tapinhas nas costas poucos veem a cruz!

 

  1. É preciso desintoxicar as nossas relações uns com os outros (41-45)

O texto revela a profundidade da fissura do grupo: a cegueira espiritual dos dois e a indignação dos dez!

Como é fácil condenar nos outros coisas que desculpamos em nós mesmos! Às vezes precisamos muito de um Natã (II Sm. 12. 1-11).

Apesar da dificuldade em lidar com esse grupo, das distorções teológicas e da intoxicação de suas mentes, Jesus os trata com gentileza: ele é o “bom pastor”, o Mestre por excelência! Ele não nos joga fora!

“Entre vocês não será assim”: uma frase capaz de desintoxicar o coração. É Jesus estabelecendo limites. É Jesus dizendo que na prática do reino a missão se legitima incluindo ao invés de excluir.

O poder que eles tanto queriam Jesus só vai prometer em Atos 1. 8, e todo desintoxicado: “Recebereis poder” – poder de testemunha em juízo! Poder para chorar, poder para sofrer, poder para vencer pela fraqueza, pela dependência, pela graça!

(Um assassino de cristãos dizendo a uma de suas vítimas: “Eu tenho o poder de tirar a sua vida, e você o que tem?” O cristão respondeu: “Seu poder é matar; o meu é morrer!”).

Conclusão

Que possamos dizer em alto e bom som: “Não é mais assim entre nós, Mestre!”