Home 2017 março 31 No dia em que eu temer

No dia em que eu temer

 

 

“Até quando, ó Senhor? Esquecer-te-ás de mim para sempre? Até quando esconderá de mim o teu rosto?” (Sl. 13.1)


Temor não é o medo de Deus, é o medo de sua ausência. O verso do Salmo de Davi é cheio de dor. É repleto de uma angústia que insiste em pintar de roxo as telas da existência. Há dias em que até Deus parece ausente. Nesses momentos de dor a gente se solidariza com as páginas molhadas de lágrimas. O gemido passa a ser íntimo, habita nossas entranhas.

A Bíblia é repleta de gente assim. É a sofrida Ana que luta com as palavras, mas perde a batalha – emite apenas gemidos. É José vivendo a terrível experiência de ser vendido, negociado como mercadoria pelos próprios irmãos – a família perde o encanto. Neemias que ouve o relato triste de que sua terra natal vive da vergonha e do caos – o passado de glória se reduz a um monturo de entulhos. Davi que chega ao ponto de desabafar: “Até quando?”

 

Fernando Pessoa, poeta português, certa vez escreveu: “Minha alma partiu-se como um vaso vazio. Caiu das mãos da criada descuidada”. A noite escura da vida parece ser muito mais longa do que o dia. Entretanto, o dia brilha, o sol não tira férias. Não existe noite eterna enquanto vivermos. O sol sempre rompe as trevas e vence. Mesmo nos dias em que a tempestade pinta o céu de um cinza tenebroso, o manto azul sempre surge. A cadência da vida é feita assim, uma nuvem hoje, sol amanhã. Inverno, verão. A constante dança das alternâncias.

 

Ana aprendeu essa lição e o sorriso de Deus a brindou com um filho. José classificou sua dor como providência divina: “… conservação da vida” (Gn. 45.5). Neemias usou todo seu potencial de liderança e transformou a tragédia de sua cidade natal em uma tremenda história de renovação. Davi termina o Salmo 13 assim: “Cantarei ao Senhor, pois me tem feito muito bem”. Talvez, nosso grande erro seja não ter essa percepção de que Deus é o supremo guia de nossa história. Não precisamos ser viciados em triunfos, às vezes, Deus se esconde na feiura da crise.
Como disse o poeta John Donne: “Assim como me deste um arrependimento do qual não me arrependo, dá-me, ó Senhor, um temor que eu não precise temer”. Que assim seja!

Author: Alan Brizotti

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